Projeto Arqueológico de Ilhabela

 

Sítio Engenho Pacuíba I - Pesquisa

Este foi o primeiro sítio em Ilhabela que passou por uma escavação arqueológica. O sítio arqueológico em questão foi por nós identificado em 2000 por ocasião do levantamento que realizamos através do Projeto Arqueológico de Ilhabela. Por localizar-se numa área destinada à implantação de um condomínio, seu estudo foi prioridade. A pesquisa teve o objetivo de identificar e estudar os estratos arqueológicos, bem como os artefatos, biofatos e ecofatos referentes a um assentamento do século XIX, cujas ruínas indicam tratar-se do remanescente de um engenho de cana de açúcar.

O sítio localiza-se na praia da Pacuíba, parte norte da Ilha de São Sebastião. A estrutura arquitetônica existente se apresenta bastante destruída, restando apenas uma escada de pedra, alicerces e partes de algumas paredes feitas em alvenaria de pedra e cal. Próximo das ruínas, há algumas décadas, foi construída uma casa de pau-a-pique onde morava o caseiro responsável pelo terreno.

O local onde situam-se as ruínas também abrigava turistas que nos finais de semana acampavam. Um dos cômodos das ruínas foi adaptado pelo referido caseiro para depositar suas tralhas de pesca, sendo colocada uma estrutura de madeira de duas águas e coberta de lona para a cobertura.  Na parte frontal, uma parede servia de complemento a um quiosque à beira da praia, onde foi construído um forno para churrasco.  

Situação do sítio antes da pesquisa

Através da escavação arqueológica, foi possível evidenciar as estruturas arquitetônicas existentes e descobrir novas estruturas então sob o solo.

Na área 2E, a mais rica do setor 01, evidenciamos estruturas arquitetônicas do pavimento superior traseiro, além de diferentes camadas arqueológicas de diferentes períodos de ocupação.

 

A camada superior, mais recente, possui cerca de doze centímetros de espessura, com pouco material arqueológico, seguida de uma pequena camada de cinco centímetros de espessura, de coloração avermelhada. Abaixo temos outra camada cuja espessura varia entre quinze e vinte e dois centímetros, quase sem qualquer artefatos, tratando-se, provavelmente, de aterro, por ocasião de alterações e reformas no imóvel. A última camada, com cerca de vinte e quatro centímetros de espessura é a mais antiga encontrada no local, contendo louça, cerâmica, conchas e telhas.

 

Na quadrícula 02, sobre a camada 02, o solo é de coloração cinza, resultado de cinzas de carvão, em formato retangular, podendo tratar-se de um forno, embora não existam estruturas associadas no local.  

Setor 01, estratigrafia da Área 2E. Local retangular com camada de solo cinza, de um possível forno  

 

Destacamos a quadrícula 05 do Setor 01, onde foram evidenciados vários ossos de animais e aves juntos a um potinho de cerâmica inteiro no meio deles. Isto sugere algum tipo de ritual afro, talvez praticado por escravos ou descendentes desses.

 Setor 01, A.3

No Setor 3 situado em frente à praia, junto à divisa com a propriedade vizinha, foi encontrada a maioria dos artefatos. Alguns estavam aflorados, sendo que a escavação revelou objetos até 27 centímetros de profundidade.

Escavação do Setor 03

A construção

A construção, hoje em ruínas, era um sobrado, possuindo dois pavimentos na parte frontal e um pavimento na parte inferior. Este pavimento inferior, devido à inclinação do terreno, situava-se no mesmo nível do pavimento superior frontal.

O cômodo frontal inferior (b) possui uma única entrada e não possui janelas O acesso para o pavimento superior frontal era feito através de uma escada de pedra com seis degraus ( ^­ ) e que se iniciava na parte externa frontal.

Nas áreas “a” e “c” assinaladas na planta não havia vestígio de paredes formando cômodos. Entretanto, é provável que existissem coberturas sem paredes, ambiente aberto com as coberturas fixadas em esteios de madeira.

Já a parte traseira da construção, no mesmo nível do pavimento superior da parte frontal, possuía um cômodo fechado (d), identificado pelos alicerces. Tais alicerces não atingiam mais que cinquenta centímetros de altura, o que não permitiu saber sobre a existência de janelas. É neste cômodo que foram encontradas diferentes camadas de ocupação e indicativos de reformas e alterações naquela parte do prédio, bem como vestígios de um possível forno retangular ( <-> ).

A cultura material encontrada no sítio permitiu o estabelecimento do período de ocupação do local. A faiança foi um elemento determinante no conjunto dos artefatos, pois seu padrão decorativo possibilita conhecermos o seu fabricante e período de produção. Nesse sentido, a faiança identificada é do século XIX, indicando esse século como o da ocupação do local. O restante do material encontrado é compatível com esse período. Os vidros de garrafas contêm indicadores de sua produção artesanal no processo de sopro. Tanto o grés quanto à cerâmica vitrificada eram produzidas nesse período, bem como a cerâmica neobrasileira e os cachimbos, embora seja uma prática que permaneceu até o século seguinte. Já as moedas encontradas são dos anos de 1820, 1869 e 1879, compatíveis com o período sugerido.

Situação atual das ruínas

Mais informações sobre o sítio e a pesquisa serão disponibilizados através da publicação de um livro sobre o tema, que deverá ser publicado no primeiro semestre de 2003.

 
Trabalho em Laboratório

O material arqueológico coletado foi acondicionado em sacos plásticos contendo todos os seus dados de origem, como o  setor, área, número da quadrícula e profundidade e, então, encaminhado ao Laboratório. Ao todo, foram coletados 12.108 artefatos, sendo 5.829 fragmentos de cerâmica, 4.593 fragmentos de faiança e 1.686 outros tipos de materiais, como grés,vidro, metal, pederneiras, moedas, ossos, conchas, botões, etc.

O material arqueológico coletado foi acondicionado em sacos plásticos contendo todos os seus dados de origem, como o  setor, área, número da quadrícula e profundidade e, então, encaminhado ao Laboratório. Ao todo, foram coletados 12.108 artefatos, sendo 5.829 fragmentos de cerâmica, 4.593 fragmentos de faiança e 1.686 outros tipos de materiais, como grés,vidro, metal, pederneiras, moedas, ossos, conchas, botões, etc.

No Laboratório de Arqueologia as peças eram higienizadas, secadas, numeradas, classificadas, remontadas, fotografadas e acondicionadas em sacos plasticos e caixas de arquivo. 

EQUIPE TÉCNICA

 Coordenação

Prof. Ms. Plácido Cali - Arqueólogo

 Assistentes de Pesquisa

Aline Vieira de Carvalho – UNICAMP

Daniel Acuyo Myssior

Davi Fabian Pescara

José Carlos Cavalcanti

Lais Helena Gomes Silva – UFRJ

Maria Fernanda Brunieri Regis – UNICAMP

Martin Ramos

 Restauração

Márcia Mayumi Nakata Barbieri - Restauradora

 Assistentes de Laboratório

André Roque dos Santos

Carlos Roberto Ono

Flávio Antonio de Jesus Ferreira

Karla Beatriz Baise dos Santos Myssior

Rosangela Ferreira

Operacionais

 Hélio Ribeiro Soares

Paulo Lucaz

Silvano Aparecido dos Santos

Washington Gomes da Silva

 Topografia

 Antonio Carlos de Moraes Júnior – Topógrafo (Agrimen Topografia)

Equipe que participou da escavação arqueológica no sítio Engenho Pacuíba I